Sexta-feira, Dezembro 28, 2007

VONTADES E ESPERANÇAS

Num ano que vai ficar marcado para mim, como o ano da renovação, do meu coração revascularizado, quero deixar marcado, registrado, em todos os meus queridos blogues e assemelhados, minha felicidade e esperanças para os muitos outros anos que eu ainda espero desfrutar aqui no planeta.
E que essa esperança e felicidade, seja estendida a todos amigos, parentes e os mais chegados, em toda a sua plenitude.

FELIZES ANOS NOVOS!

Sexta-feira, Junho 22, 2007

EU SOU MENINO

Não sabia como tudo tinha começado. Conversavam, planos para o casamento em breve, quando, do nada, como dizem, surgiu a discussão. Nenhum dos dois soube o porque, bem como não souberam abrir mão dos seus argumentos. Desse tipo de coisa que acontece em momentos mais tensos, quem sabe, até mesmo um casamento. O deles.
Sabiam que era coisa a ser resolvida, mais dia, menos dia, a qualquer hora, bastava esfriar a cabeça. Um dos dois, ao menos. Qual deles?

Ela já tinha ido embora, quando ele resolveu que daria o passo inicial, para acabar com esse problema. Amava sua namorada, pombas!
Mas estava precisando espairecer, limpar a cabeça, que não parava de pensar naquela briga tola e que tomara proporções maiores.
“Fazer o quê", tentava simplificar, “são coisas que acontecem”.
“Vou dar uma saída, esfriar a cabeça e depois penso melhor”.
Tomou um bom banho, fez a barba, vestiu uma roupa mais esportiva, saiu, sem qualquer plano pré-estabelecido. ”No caminho, eu resolvo”, pensou.
Desceu a Marques de São Vicente, Gávea, lá no final, carrinho novo, canal do Leblon, na dúvida nem pestanejou, subiu a Niemeyer, sem destino, “easy rider”.
Começou a sentir-se melhor, menos culpado pela briga que tivera. Gostava, muito, da namorada. Nada do que pretendia fazer agora, buscava esquecê-la. Apaziguar sua cabeça, isso sim!
Passou pelo Sheraton seguiu em frente, fim de tarde linda, começava a ficar mais tranqüilo. Subida do Vidigal, a direita, passou batido, seguiu em frente pela Niemeyer, ligou o rádio, musiquinha gostosa, procurava pensar aonde iria, onde tentaria colocar sua cabeça no lugar. Na verdade, começava a pensar como resolver a briga com a namorada, tinha que ser no dia seguinte. Pra isso, limpar a cabeça, raciocinar legal, rapidinho, obrigatório.
Mas, aonde ir, tornou a pensar. Já estava na altura do King´s Motel, quando resolveu voltar.

“Sheratton! É isso!”
Tem aquela casinha onde funciona uma cachaçaria, em que ele já estivera umas vezes com a sua namorada. “É pra lá que eu vou!”
Freou, observou o trânsito, aproveitou a espécie de retorno que existe em frente ao King´s, arrancou no sentido que viera, se mandou para o Sheraton. Lá chegando, desceu aquela rampa chata, circular, que não acaba mais, estacionou e foi em busca da tal cachaçaria.
Achou, procurou um lugar para ficar, o atendente se lembrava dele, perguntou pela namorada, deu uma resposta qualquer. Casa quase cheia, mesinha num ponto discreto, mas com vista para o mar. Afinal estava lá pra ver se refrescava a cabeça, outras intenções?, isso nem passava pela cabeça. Cardápio na mão, mais para constar pois já sabia o que pedir, sempre a mesma coisa, “bolinhos de aipim com carne seca, caipirinha de cachaça sem açúcar, mas traz o adoçante que eu tempero aqui mesmo”, relaxou. Nada passava pela sua cabeça. Branco total!
Minutos de total “relax” enquanto aguardava o pedido, vista para o mar, tranqüilo e limpo, sol se pondo, ainda dava pra ver alguns reflexos do sol que se deitava lá pras bandas do Costa Brava, ficou certo de que sua escolha fora a melhor. Sairia de lá, certamente, com a idéia recomposta de se acertar com a mulher amada. Chegou a pensar em telefonar pra ela, mas sacou que seria prematuro. Se ele ainda tentava digerir o “tranco”, sabe-se lá a cabeça dela. Certamente estaria precisando do mesmo tempo que ele. “Tempo pra ela, também,” pensou.

Um olhar geral pelo ambiente, mera formalidade, tem a atenção despertada por uma bela jovem, sentada em uma mesa quase oposta a sua. Sozinha, possivelmente esperando alguém, “uma gata dessas não pode estar sem companhia”. Desencanou, relaxou, chegou seu pedido, provou a caipirinha, maravilhosa, provou o bolinho, como sempre de primeira, “vou ficar na minha, pianinho, pianinho”. Mas, cabeça de homem, mesmo que fosse para conferir se já chegara o “cara” da menina, deu nova espiada para a mesa da linda morena. E lá estava ela, sozinha. Incrível, já se passara meia hora e a “gata” continuava sozinha! “Garota de programa?” Chamou o garçon, perguntou se ele conhecia a moça, se sabia quem era. Nada! Segundo o garçon, era a primeira vez que a via por ali. Olhou de novo e viu que a linda morena olhava para ele. Coincidência, pensou. Mas, novamente, seus olhares se cruzaram. “Seria o destino?”, pensou, já meio interessado. Afinal, de uma forma ou de outra, estava meio “dispensado”, brigara com a namorada, uma oferta daquelas, um “mole” daqueles, de uma coisa linda como aquela...não dava pra desprezar.

Chamou o garçon. Redigira um bilhetinho, cuidadoso e educado, onde convidava a moça para compartilhar a mesa com ele. “Dividiriam as solidões”, papo besta, vá lá, mas foi o que ocorreu. “Vai lá naquela mesa, discretamente, e entrega esse “torpedo” pra moça”.
O garçon, amigo, ainda o olhou com aquele olhar cúmplice, afinal conhecia sua namorada oficial, e foi à mesa da moça. Ele ficou só olhando, talvez imaginando que ela não aceitasse seu convite. Momentos de expectativa, “afinal, quem não arrisca,não petisca”, seguido daquele ar de triunfo quando ela se levantou e veio em direção a ele, à sua mesa. Ela, pôde constatar mais de perto, era de fato bonita. Alta, mais para magra, mas com tudo em cima, bem vestida, voz aveludada e quente, “me dei bem”, pensou. Levantou-se, educado e gentil, puxou a cadeira pra ela sentar, tirando essa obrigação do garçon, aquele boa-noite - a tarde já se fora e a noite dava o ar da sua graça – hora de começar a arte da conquista, em que ele se considerava um craque. De fato, a estória dos seus romances, comprovava.

Conversaram muito, ela tinha uma educação mais apurada do que ele imaginara, estudava Comunicação, planos para futura viagem à Europa, papo fluindo, mãos se tocando, corpos se aproximando, tudo muito cuidadosamente, como ele imaginava numa conquista educada. Haviam jantado, o tempo passara, o interesse ficava evidente, de parte a parte. Não poderia ficar só nisso! “Vamos sair e procurar um lugar mais aconchegante”, falou, prontamente aceito por ela.
King´s Motel, próximo e bacana. Conta paga, aquela corrida para o carro, alguns “amassos” pelo corredor, mãos procurando contatos mais íntimos, entram no carro, nada em volta, “que tal umas investidas mais afoitas, mais, digamos, invasivas”, pensou de novo.
Ela, totalmente envolvida, vai permitindo, seios, coxas, nádegas, quando, ao se aventurar um pouco mais, ela pede que ele pare. “Quero te dizer uma coisa, meu bem”, ela consegue falar em meio aquele delírio em que estavam envolvidos. Ele, nessa hora já completamente enlouquecido, quase desespera. Mas, lembra-se, “estamos no estacionamento, eu acho que perdi a cabeça, mesmo” . Para, afogueado, e ouve o que tem a dizer a bela morena.

“Eu sou menino”, ela fala, clara e limpidamente, para total surpresa dele. “Eu sou menino”, repete, Desfaz-se o encanto, como se um abismo se abrisse aos seus pés, suportado, apenas pela sua educação. Ou, até mesmo, pela surpresa, tão inesperada, arrasadora.
Ela, ele, o “menino”, até meio encabulado, pede desculpas, “mas, se a gente ia ter alguma coisa mais séria, eu achei que você devia saber”, arremata. Desconversam, com a educação que uma situação dessas consegue permitir, aquele natural constrangimento de parte-a-parte, ele pergunta a ela / ele onde gostaria de ficar, “vou leva-la em casa”.

Copacabana, o destino, Bairro Peixoto. Dito e feito, deixada a “dama” em casa, ele volta para seu apartamento, pensando como isso pode ter acontecido com ele, acostumado a algumas surpresas, mas nada parecido com isso. “São coisas que acontecem!”, busca uma explicação, ou um consolo.

Três meses depois casou com a namorada. Festa enorme, igreja repleta!
Da moça/moço, nunca mais teve notícias. Por via das dúvidas, nunca mais voltou na tal cachaçaria.

SÃO COISAS QUE ACONTECEM!

Terça-feira, Junho 05, 2007

RECICLANDO

Resolvi que vai ser aqui, no meu Baú, que começarei a "depositar" minhas iniciais investidas literárias, melhor dizendo, minhas divagações impensadas.
Resolvi tomar coragem, afinal esse espaço não carece de permissão, ou prévia análise para receber o que escrevo e, portanto, aqui "desovarei" minhas escrevinhações.

TENHO DITO!

Quinta-feira, Dezembro 29, 2005

UMA VIAGEM PARA ESQUECER! OU NÃO!

No último dia 19 de dezembro fui a São Paulo, para mais uma vista d´olhos na obra do Bruno. A viagem, foi lamentável. De onibus, da Salutaris.
Sobre o assunto enviei correspondência para empresa, com cópia para a tal da ANTT.
Como essas coisas as vezes nõa surtem efeito, registro, aqui no meu Baú, minha reclamação.

UMA VIAGEM PARA ESQUECER! OU NÃO!

Por força de afazeres profissionais, mais-ou-menos uma vez por mês preciso ir a São Paulo.
Como moro em Petrópolis e vou de ônibus, existe um horário da empresa Salutaris que me facilita bastante a empreitada. Segunda-feira, agora, as oito horas da manhã. Existe um a noite, mas eu detesto viajar a noite. Então, esse horário torna-se super adequado.
Sai-se de Petrópolis por volta das oito horas e lá pras duas, duas e alguma coisa, mais tardar, chegamos em São Paulo. Maravilha! Pena não ter um horário parecido retornando de São Paulo.

No último dia 19 de dezembro, utilizei esse mesmo horário para deslocar-me para São Paulo. Pela primeira vez viajei nesse ônibus lotado como estava. Explica-se: véspera de Natal, a comodidade de fazer o trajeto sem baldeações, famílias inteiras viajando, muitas crianças, mas tudo dentro das ocorrências natalinas.
Saímos no horário, mas pegamos, já na baixada, próximo a entrada para a Rio/São Paulo, um engarrafamento que nos roubou uns 30/40 minutos. Rio/São Paulo tomada, a viagem entrou no ritmo normal e tudo corria bem.

Corria! Pois algo diferente aconteceu. De repente a temperatura interna do carro subiu para 30 graus. Calor intenso, sobretudo numa viatura que não tem possibilidade de abrir janelas. O que eu acho ótimo. Fui à cabina do motorista e reclamei. Com paciência e educação, respondeu-me o “ajudante” (seria? viajava ao lado dele, em pé) que haviam solicitado por causa das crianças. Respondi, no mesmo tom amistoso e cordial que eu pagara para ter um ônibus com ar-condicionado. Ele prometeu corrigir a temperatura, coisa que demorou pelo menos mais uma meia hora. Resolvi agüentar o calor.

Seguimos em frente e chegamos a Resende, onde havia a programação de uma ligeira parada de quinze minutos. Perfeita, quando a viagem não sofre atrasos, chega-se à parada por volta das dez e trinta. Mas, já eram mais de 11,15 da manhã. Alguma fome já apertava os viajantes. O ajudante do motorista (gordo, bigodudo e simpático / educado) ainda tentou negociar alguma alternativa, principalmente por não haver qualquer outra parada para alimentação. Preferimos ficar com fome mesmo e não atrasar ainda mais a viagem.

Quinze / vinte minutos depois, reembarcamos e a viagem seguiu seu destino. Tudo parecia que terminaria bem, que o atraso seria só aquele, os tais quarenta minutos. Até imaginei que o motorista imprimiria velocidade maior ao carro, para tirar algum atraso, mas tal não aconteceu. Ele era bem cuidadoso! Mas, felicidade de passageiro de ônibus tem limites. Entre Taubaté e São José dos Campos, para deixar passageiros descerem, foram cinco paradas. Algumas, demoradas. O motorista, cuidadoso, também era bonzinho. Pediam pra entrar, para facilitar a descida, ele entrava. Chovia, ele procurava um lugar abrigado, coberto, para parar. Embora isso atrasasse a viagem, e tem gente que precisa cumprir horários, acreditem!, os ares natalinos, a presença imaginária do bom velhinho com o seu barrete vermelho, tudo contribuía para que suportássemos essas ocorrências. Tudo bem, vamos chegar com uma hora de atraso, mas é Natal!

Mas, outro mas!, o absurdo maior estava para acontecer. Faltando uns míseros três quilômetros para chegarmos à Rodoviária, plena Marginal Tiête, na pista expressa, o ônibus faz outra parada. Incrível! Com uma pequena calçada a nos separar da pista secundária, trânsito enorme, carros e caminhões passando sem parar, o ônibus estaciona, uma família, com crianças e tudo, fica esperando as bagagens serem retiradas (claro! o bagageiro teve que ser aberto para tirar um monte de malas!), enquanto a família esperava o trânsito dar alguma condição de eles atravessarem a rua para pegar o carro que o idiota, só poderia ser!, do marido esperava como o seu carro parado. Perigo total, imprudência de parte-a-parte, responsável pela família e condutores do ônibus, tudo isso para privilegiar um idiota, o “chefe de família”, que possivelmente não queria perder o tempo de ir buscar a sua família na Rodoviária. Isso tudo, a não mais de três quilômetros do final da viagem.

Ao chegar ao ponto terminal de nossa conturbada viagem, esperei que todos os passageiros fossem embora e fui conversar com o motorista e o tal “ajudante”. Super atenciosos e educados, ouviram a minha irada, embora educada, reclamação. Falei-lhes que as paradas, ao longo do percurso, embora causadoras de um bom atraso ainda seria suportável. Mas a última parada, plena Marginal Tiête, com uma enorme dose de perigo, tinha sido não uma “camaradagem”, mas uma burrice total deles. Inconseqüência, perde! De goleada.
Despedimo-nos, falei-lhes que mandaria essa correspondência para a Empresa, desejei-lhes Feliz Natal, contente por ter chegado sem maiores danos ao meu destino. Mas, rigorosamente decepcionado com os acontecimentos relatados.

Disso tudo, o que espero:
1-que a companhia esclareça, terminantemente, que paradas com aquela, próxima à Rodoviária, sejam proibidas;
2-que seja avisado aos viajantes que o ônibus tem ar-condicionado e que o problema de enfrentá-lo, caso seja, é dos próprios passageiros. Que tragam agasalhos, ou que a companhia forneça cobertores, como fazem as outras empresas.

Faria, ainda, uma outra sugestão: a volta ao horário antigo, nove horas, notadamente agora que a partida da viagem é feita do novo Terminal, no Bingem. Tem mais, saindo as oito, ou as nove, com a retenção que ocorre nos primeiros horários, dá quase no mesmo.

Gostaria muito de receber um retorno dessa correspondência, nunca imaginei nenhuma punição ao motorista e seu “ajudante”, bem como gosto muito desse horário e continuarei a utiliza-lo.

Atenciosamente

Fernando Cals
ps: Moro em Petrópolis (Correas), e meu e-mail é: fernando.cals@gmail.com
telefone: (0xx24)2221-2396


RECLAMAR, QUANDO NECESSÁRIO, É A NOSSA OBRIGAÇÃO!

Quinta-feira, Dezembro 15, 2005

DRUMMOND

Apelo a Meus Dessemelhantes em Favor da Paz

Ah, não me tragam originais
para ler, para corrigir, para louvar
sobretudo, para louvar.
Não sou leitor do mundo nem espelho
de figuras que amam refletir-se
no outro à falta de retrato interior.
Sou o Velho Cansado
que adora o seu cansaço e não o quer
submisso ao vão comércio da palavra.
Poupem-me, por favor ou por desprezo,
se não querem poupar-me por amor.
Não leio mais, não posso, que este tempo
a mim distribuído
cai do ramo e azuleja o chão varrido,
chão tão limpo de ambição
que minha só leitura é ler o chão.
Nem sequer li os textos das pirâmides
os textos dos sarcófagos,
estou atrasadíssimo nos gregos,
não conheço os Anais de Assurbanipal,
como é que vou -
mancebos,
senhoritas,
-chegar à poesia de vanguarda
e às glórias do 2.000, que telefonam?
Passam gênios talvez entre as acácias,
sinto estátuas futuras se moldando
sem precisão de mim
que quando jovem (fui-o a.C., believe or not)
nunca pulei muro de jardim
para exigir do morador tranqüilo
a canonização do meu estilo.
Sirvam-se de exonerar este macróbio
do penoso exercício literário.
Não exijam prefácios e posfácios
ao ancião que mais fala quando cala.
Brotos de coxa flava e verso manco,
poetas de barba-colar e velutínea
calça puída, verde: tá!
Outoniços, crepusculinos, matronas, contumazes:
tá!
O senhor saiu. Hora que volta? Nunca.
Nunca de corvo, nunca de São-Nunca.
Saiu pra não voltar.
Tudo esqueceu: responder
cartas; sorrir
cumplícemente; agradecer
dedicatórias; retribuir
boas-festas; ir ao coquetel e à noite
de autógrafos-com-pastorinhas.
Ficou assim: o cacto de Manuel
é uma suavidade perto dele.
Respeitem a fera. Triste, sem presas, é fera.
Na jaula do mundo passeia a pata aplastante,
cuidado com ela!
Vocês, garotos de colégio, não perguntem ao poeta
quando ele nasceu.
Ele não nasceu.
Não vai nascer mais.
Desistiu de nascer quando viu que o esperavam garotos de colégio de lápis em punho
com professores na retaguarda comandando: Cacem o urso-polar,
tragam-no vivo para fazer uma conferência.
Repórteres de vespertinos, não tentem entrevistá-lo.
Não lhe, não me peçam opinião
que é impublicável qualquer que seja o fato do dia
e contraditória e louca antes de formulada.
Fotógrafos: não adianta
pedir pose junto ao oratório de Cocais
nem folheando o álbum de Portinari
nem tomando banho de chuveiro.
Sou contra Niepce, Daguerre, contra principalmente minha imagem.
Não quero oferecer minha cara como verônica nas revistas.
Quero a paz das estepes
a paz dos descampados
a paz do Pico de Itabira quando havia Pico de Itabira
a paz de cima das Agulhas Negras
a paz de muito abaixo da mina mais funda e esboroada
de Morro Velho
a paz
da
paz

Carlos Drummond de Andrade (31 de outubro de 1902- 17 de agosto de 1987) IN: Poesia Completa. Aguilar, 1992.

PARA LER, CONTRITAMENTE.

Sexta-feira, Dezembro 02, 2005

UM CERTO FIAT 147

Como fazia todos os domingos, fui jogar minha “pelada” de basquete. Éramos um grupo de ex-jogadores de basquete, de clubes, alguns com passagem por seleções e até ex-olímpicos. A “pelada” do Forte Copacabana, do famoso Combinado Copacabana. Alto nível.
Até hoje, não mais no Forte Copacabana, a turma de veteranos do basquete se reúne, faz suas peladas e termina em um barzinho, mandando uns beliscos, tomando muitos chopps e jogando conversa fora. Rotina imbatível e maravilhosa. Do pessoal fundador do Combinado, poucos ainda vivos, quase nenhum consegue mais participar das peladas. Mesmo assim, os mais velhos que “sobraram”, os fundadores, estão sempre por lá. Eu, por força do “abandono” dos meus joelhos, parei de jogar. Agora, só nado.

Naquele domingo, idos de 1982, recentemente separado da minha mulher, lá estava eu a fazer os meus pontinhos, brigar pelos rebotes e me satisfazer pelo puro prazer de jogar. Adorava minhas “peladas”. Era um dos que chegavam mais cedo, para fazer a primeira “pelada”, fominha que eu era. Acho que já havia jogado umas duas “peladas”, sol intenso, suando em bicas, quando de repente, irrompe Forte adentro, minha ex-mulher. Todos sabiam da nossa separação, coisa recente, ainda por digerir. Um certo momento de surpresa, tomou conta de todos. O que estaria fazendo a minha mulher, aliás ex-mulher, ali na “pelada”, plena manhã de domingo?

Parou a “pelada”!
Ela chegou a mim, cara de preocupada, e veio me pedir ajuda, pois o seu carro, um Fiat 147 estava todo arrebentado, “atropelado” que fora por um outro automóvel que perdeu a direção e se mandou. Deixando-o quase destroçado, plena Avenida Francisco Otaviano, Copacabana, Posto Seis, naquele domingão ensolarado. Mesmo sem saber o porque da escolha dela para esse socorro, pensando cá comigo “porque ela não chamou o seu namorado”, lá fui eu. O automóvel estava bem avariado, não conseguia ir para a frente e ficara quase no meio da rua. Algum jeito precisava ser dado. Consegui engrenar uma marcha-a-ré, movimentei o que sobrara do carro (?) e deixei-o, digamos, “estacionado”. Recebi os agradecimentos dela, voltei a minha pelada, ainda a tempo de jogar a “última” . Quase automaticamente. A cabeça ficara longe. Acho que seguira com ela.

Claro, a pergunta geral, a mesma que passara pela minha cabeça, dos amigos da “pelada”, foi porque minha ex-mulher me procurara e não a qualquer outra pessoa, talvez algum novo namorado, um amigo? Voltei pra casa meio chumbado, pelo acidente e pela ajuda que, embora pouco me custasse, veio reacender uma certa dor que eu tinha, pela recente separação. Nem ao choppinho de encerramento eu fui. Não dava.

Mais tarde, tempo que passa e ajuda a revelar as coisas, concluí que uma coisa chamada de confiança, de amizade, dessas que só o tempo consolida, deveria ter sido a responsável pela escolha dela naquela situação de emergência que tivera. Acho que elegi essa teoria como uma espécie de consolação para as minhas indagações.
Até hoje, não consigo esquecer o quanto me custou aquele “socorro” naquele distante domingo.
Mas, nada como o tempo, e suas revelações,para tudo remediar

ACONTECEU EM 1982

Segunda-feira, Outubro 31, 2005

DO LADO DA FEIURA

Um dos bons projetos que eu fiz, foi de uma casinha de vila, num lotezinho de 5.00X24.00m. No Maracanã, Rio de Janeiro, idos de 1975.
Já fiz projetos grandes, 12 hoteis, Escola Americana do Rio de Janeiro, casas de mil metros quadrados, mas essa casinha de vila sempre foi uma das minhas favoritas. Se não a própria!
Um verdadeiro desafio para quem, como os proprietários, desejava uma casa de sala e três quartos. E tem mais, como pediu a Vera, a cliente, com entrada de serviço separada da social. E não me venham perguntar da garagem, pois o carro deles ficava parado na ruazinha particular da vila, ora pois! Como de todos os outros moradores.
Claro, em dois pavimentos.

Mas, nessa belezinha de casa, um acontecimento encheu as minhas medidas.
Precisava executar uma parede que parecesse de pedra, não simplesmente revestida de pedra. Mandei vir uma partida de pedras de 50x50cm, dessas que se usam para fazer pisos externos, junto a gramados, que possuem uma face aparelhada (preparada para ficar a vista) e outra rústica e, digamos, mal acabada.
Contratei um calceiteiro (pra quem não sabe, é o cara que trabalha com pedras), já um senhor, que veio com um ajudante, um garoto. Acho que era o seu neto. Nem me lembro mais do nome do senhor.
Mostrei-lhe as pedras e disse-lhe:
“O senhor vai partir as pedras, sem nenhuma intenção de ficarem iguais, até pelo contrário, e revestir essa parede (a que já havia sido levantada pelo pedreiro) pra ela ficar com cara de parede de pedra, dessas tipo uma sobre a outra.”
“Sim senhor”, respondeu-me ele.
“Tem mais”, continuei eu, “nada de escolher. Apenas pegue as pedras, sem olhar e assente na parede”.
“Estou entendendo”, falou o velhinho, com a cara total de quem sabia daquilo muito mais do que eu poderia imaginar.
“Mas tem mais uma coisa”,arrematei eu, “o senhor vai colocar essa pedras com o lado sem acabamento para ficar a vista, bem rústica”. Será que ele teria entendido? perguntei-me internamente.
Ele olhou-me, com um meio sorriso altamente indulgente e disse-me:
“Já sei, o senhor quer que eu coloque as pedras do lado da feiura”.
Falou isso sem nenhuma intenção de menosprezo. Ou porque estivesse achando que ficaria ruim. Apenas simplificava tudo aquilo que eu tentava passar a ele.

Nunca esqueci esse velhinho, de quem nem me lembro mais o nome.
A parede, ficou notável. Parecia uma parede de pedra, dessas que a gente vê em arrimos ou bases de sustentação de edificações. Uma maravilha!
E a sua definição, “do lado da feiúra”, uma lição de que nem sempre se precisa utilizar de requintadas descrições para dizer as coisas certas.

ESTÓRIAS OBREIRAS, SIM SENHOR!

Terça-feira, Outubro 25, 2005

FLAMENGOS QUE NOS DAVAM ORGULHO

flamengodos40WEB.jpg
Jurandir, Domingos da Guia e Norival
Biguá, Bria e Jaime
Valido, Zizinho, Pirlo, Perácio e Vevé

Por volta de 19quarenta e tal.
Não me lembro do técnico
Cheguei a ver esse time jogar. Dava gosto!
ps: nessa foto, várias alterações. Mas, a direita, em pé, dá pra ver a linha média, assim era chamada, Biguá, Bria e Jaime. Agachados, consigo ver o Zizinho, o Pirilo e o Vevé. O goleiro, já era o Luiz Borracha.

Garcia, Tomires e Pavão
Jadir, Dequinha e Jordan
Joel, Rubens, Índio, Benitez e Esquerdinha

1953. Campeão. 1954 e 1955, com base nesse time, algumas modificações, fomos tri-campeões.
Técnico: Dom Fleitas Solich
Verdadeira máquina!
ps: não tenho fotos dessa máquina.

equipe1981WEB.jpg
Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Júnior;
Andrade, Adílio e Zico;
Tita, Nunes e Lico.

1981, campeões do Mundo
Técnico: Paulo César Carpegiani.
Esse, pra mim não melhor do que o tri-campeão acima, tinha, no entanto, os gênios de Leandro, Junior e, maior de todos, Zico!!!

Meio a essas esquadras, tivemos alguns times bons, até campeões. Mas, iguais a esses, desconheço. Ou aconteceram antes da minha vã compreensão.

Agora, faz tempo, só uns enganadores. Ganham muita grana, bem mais do que aqueles, e não jogam nada. Um ou outro, escapa. Mas...quanta porcaria travestida de craque!

MANTO SAGRADO.jpg
O MANTO SAGRADO! NÃO É PRA QUALQUER UM NÃO!

PUTA SAUDADE!
ps: chora Fernandão, chora!!!

Terça-feira, Outubro 18, 2005

NEGATIVA PEREMPTÓRIA

Assim explicava, aconselhava, um ex-chefe meu, na verdade Diretor da Empresa, para um acontecimento em sua vida matrimonial. Que ele apresentava como exemplo a ser seguido.

Seguinte:
Estava ele, com uma das suas amantes (sim, o cara tinha a facilidade de atrair para si, essas desesperadas que enxergam no tipo meio acafajestado, uma certa aura de fora-da-lei romântico), sentada no seu carro, plena rua movimentada de Copacabana, despedindo-se das “fuzarcas” da véspera, quando avista, pelo retrovisor do carro, sua mulher vindo. Uns cento e cinquenta metros atrás, digamos. Sem esboçar qualquer susto, ou desespero, o cara vira-se para a acompanhante e diz-lhe, simplesmente:
“Abre a porta, não olha pra trás e vai embora”.
“Como?”, pergunta a “outra”.
“Sem perguntas, faz o que eu disse”
A moçoila, mesmo sem entender nada, fez o que o sujeito pediu.

Pausa para uma perguntinha, ao leitor.
Você, numa situação dessas (se é que você é chegado nisso, claro!), o que faria?.
Engrenaria uma primeira e sairia batido? Será? Enquanto ouvíamos a estória do cara, contada com alto grau de soberba e descaramento machista, ocorreu-nos, quase unanimemente, tal solução (?).
Pois bem, volto ao relato.

R., sem mais informações, simplesmente ficou onde estava, calmamente, esperando a chegada da sua consorte (pois sim, com sorte!). Que chegou espumando, furibunda, indignada, abrindo a porta, de sopetão, do carro, crivando R. de perguntas e xingamentos.
Ele, o “artista” do fingimento e da cara-de-pau, mostrou-se surpreso, desentendido, e perguntou, candidamente fingido, à esposa:
“O que é isso, meu bem? Eu vejo você vindo, espero calmamente a sua chegada, para irmos juntos e você despeja esse monte de impropérios?”.
“Claro, seu desgraçado! Quem é aquela sirigaita que eu vi saindo do seu carro?”.
“Sirigaita? Saindo do meu carro? Você tem certeza do que está dizendo?” , responde R. minimizando o assunto e já engrenando a primeira do carro, saindo do local onde estavam.
“Eu vi, claramente. Como é que você tem a coragem de negar?”.
“Você deve estar confundindo, meu bem. Não tinha ninguém no meu carro, eu havia parado pra ver umas anotações e já ia sair quando vi que você estava vindo. Esperei, portanto.”
“Eu vi...” a já chorosa esposa repetia, e repetia, e repetia.
“Você confundiu as coisas. Não havia ninguém no carro” , mantinha a negativa, o descarado indivíduo.
Seguiram viagem, ele deixou a esposa, choramingando e já meio duvidosa, em casa e foi jogar golfe no Itanhangá. Tudo muito normal, como ele sempre fazia.

“Cara!” , perguntamos todos, “como você se saiu dessa?”.
“Negativa peremptória” , resposta do empedernido sujeito. “Negativa peremptória!!!” , aconselhava R. convicto e sem o menor pudor. Uma lição, acima de tudo, asseverava ele.

Tempo passou, vez em quando a esposa perguntava, meio que deixando entrever que relevava tal acontecimento, esbarrando sempre, na calma e repousante negativa do marido .
“Meu bem, você precisa consultar um psicólogo pra ver se resolve essa sua insegurança. Isso vai lhe fazer mal”. E continuava a leitura dos jornais.
Ela, até seguiu o conselho do marido, nunca se acostumou a idéia de que estava enganada, mas a tese de R., venceu.
Convenceu, sei lá, mas...venceu.

Nunca mais vi R., nem sei da sua trajetória por ai. Dela, tampouco.

NEGATIVA PEREMPTÓRIA

Terça-feira, Agosto 09, 2005

UNIVERSITÁRIAS

Pode fazer tempo, e faz. Mas não dá para esquecermos!
Tempos de Faculdade, tempos mais amenos, tempos de sonhos e esperanças, tempos de possíveis desatenções com a vida pra valer. Cabia, sempre cabia, uma boa dose de porra-louquice. Branda que fosse, mas comportava.

Havíamos passado para a faculdade. Faculdade Nacional de Arquitetura. Ano de 1956.
Alguns eram conhecidos, de bancos escolares, de cursinhos vestibulares. Outros, talvez a maioria, conhecíamos apenas de vista, sabe-se lá, talvez até das próprias provas do vestibular.
Acho que estávamos na porta da Faculdade, algum salão de espera, um lugar qualquer que nos antecipava a entrada formal para o 1º ano do curso.
Entre nós, com um jeitão “blasé”, meio desligadão, desconfiadamente, para muitos, um tanto-ou-quanto “fresco”, roupas importadas e diferentes, uma camisa de malha, daquelas de trama bem larga, manga “raglan” (será que se escreve assim), um futuro querido colega , hoje o colega mais destacado da turma. Nome nacional, mesmo. Depois, lá pra diante, eu conto seu nome (Ibrahim assim dizia).
Apenas para situar a peça!

Tempo que passa, o cara havia sido incorporado à turma, mais do que isso, ao grupo de que eu fazia parte (entre mais de 120 alunos, numa turma, formam-se sub-turmas, de montão!), estávamos sempre próximos, e um dos papos mais costumeiros já era o futebol. Mas o cara, com toda uma formação de “high-society”, de futebol não manjava porra alguma. Como iríamos juntos, nosso “grupelho”, a uma reunião onde, certamente, rolariam muito papos de futebol e, para não deixa-lo de fora das conversas, fizemos uma pequena “preleção”, dando dicas, mostrando como se encaixar nos assuntos, mesmo sem aprofundamentos. Consideramos a “instrução” absorvida e nos mandamos para a reunião.

Num dado momento dos papos, a coisa enveredou para o futebol. Discute-se daqui, discute-se d´acolá, chegamos perto e a discussão que rolava era sobre o próximo jogo do Fluminense. Que fique bem claro: refinado como era, “elesó poderia ser tricolor!
Seria um jogo do Flu, contra o São Cristóvão, no próximo domingo. No estádio do São Cristóvão. Figueira de Mello, para quem desconhece. Returno. O jogo do primeiro turno, havia sido vencido pelo Fluminense, de goleada.

O papo:
“ Eu quero ver no próximo domingo, se o Flu vai dar de goleada novamente”, disse alguém;
“ Vai ser outra goleada”, assegurou “ele”;
“Olha que vai ser diferente, não vai ser fácil não”, rebateu o primeiro;
Animado, afinal conseguia desenvolver um papo, uma discussão sobre tão desconhecido assunto, o futebol, disparou “ele”: “Quer apostar alguma coisa?”;
Ainda cuidadoso, afinal sabia da fragilidade “dele”, o contendor tentou explicar: “Olha que vai ser em Figueira de Mello”;
“Figueira de Mello, não! Índio da Costa!”

A gargalhada foi geral, o Indio (como todos o chamavamos, chamamos, até hoje) deu-se conta da pisada na bola e o ambiente ficou ainda mais descontraído. Rimo-nos até hoje desse episódio, quando nos reunimos.

Para quem não sabe: Tanto Figueira de Mello, quanto Índio da Costa, são duas das famílias mais tradicionais da sociedade carioca. O Índio, nosso querido Luiz Eduardo Índio da Costa, pensava que o seu “oponente” estava se dirigindo a ele, como se Figueira de Mello fosse.
Uma coisa é certa. Nem sei bem se o Índio, atualmente, saca alguma coisa de futebol. Mas, da Arquitetura, da melhor Arquitetura, bate um bolão!
TEMPO BÃO!!!

Quarta-feira, Julho 20, 2005

UM HOMEM, UM SAPATO, UM ESPANTO!

Acho que foi no ano de 1960. 1961, melhor dizendo.
Ano bom, havia me formado em Arquitetura, o mundo me oferecia espaço para meus vôos mais ambiciosos. Imagem essa, vi com o tempo, um tanto otimista e pretensiosa. Mas, a vida me estava sendo oferecida, seja lá o que aquilo pudesse significar.

Meu namoro com a Verinha, apenas começava. Já tinha feito uma viagem Rio/Posse, um Distrito de Petrópolis (mais de 120 quilometros) , numa Vespa, onde apanhei uma das maiores chuvas da minha vida em duas rodas. Sempre com a intenção de impressionar a namorada. Que ainda não estava tão certa de que eu seria o seu eleito. Outras paradas, tipo ônibus enguiçado e resto da viagem na boléia do caminhão, frio brabo, cheio de cana pra agüentar o frio, também topei. Muitas outras! A namorada merecia.
O amor é lindo, ainda não se falava assim, mas era por aí!

MocassimWEB.jpgMas, num daqueles dias de rara contra-inspiração, resolvi comprar um sapato novo, um mocassim, que eu vira e me impressionara. Bonito, muito bonito, pensei eu. Ela vai gostar, quando me vir chegar ao sítio (lá na Posse), cheio de pose e circunstância calçado naquele pisante diferentão. Alguma coisa me apontava nesse sentido. Aquele sapato não parecia uma coisa comum. Não! Não era.
Chamei o vendedor, mostrei o sapato, ele trouxe, eu experimentei. Eu já sabia que era daltônico, todos sabiam. Mas, não dei ares de derrotado para o vendedor, não abri o jogo. Apenas pedi sua confirmação, quando, meio que perguntei, meio que afirmei:
“Bonito, esse sapato marronzinho claro!”
Deu pra ver a satisfação do vendedor ao confirmar, “é mesmo, muito bonito!”. Confirmei a compra, ele embrulhou o sapato, compra realizada. Ficou feliz o vendedor, pareceu-me.

Dia seguinte, peguei o ônibus pra Posse, malinha na mão, sapato nos pés, feliz e garboso. Afinal, pra um daltônico comprar um sapato marronzinho claro, baseado em sua própria escolha e visibilidade, já era uma vitória. Lá fui eu! A viagem levava umas duas horas e meia, tinha uma parada no meio, na altura de Itaipava, e eu louco pra chegar. Já nem sabia mais se era pela Verinha ou se era para mostrar meu maravilhoso mocassim. As duas coisas, digamos!
Cair da tarde, chego ao sítio, a Granja Cruzeiro, famosa na localidade pela sua própria beleza e pelas festas e pessoas que lá apareciam. Desço do ônibus, subo a rampa, chego ao salão onde todos estavam, cumprimento as pessoas, procuro a Verinha, e noto alguma coisa diferente. Todos os presentes olhavam-me, admirados e curiosos. Olhavam pra mim e para os meus pés, melhor dizendo, meus sapatos.
Todo prosa, falei: “Comprei esse mocassim marronzinho, claro”. Aí, já meio desconfiado de que algo estava errado. Pois, pra que tanta observação?
Marronzinho???!!!” Foi a exclamação geral, seguida de risos e gozações.
Verinha, ah! o que os corações apaixonados não fazem, veio em meu socorro, levou-me para o lado, ligeiramente fora dos focos gozadores da galera e me disse:
“ Marronzinho, Fernando? Esse seu sapato é vermelhão escandaloso” Claro, só me restou unir-me aos risos gerais e aceitar as gozações e sacanagens gerais.

Naquela mesma noite, enquanto todos se divertiam, eu pintava o sapato vermelho com uma dessa tintas pretas tipo Nugget ou similar. E me recordava da cara do vendedor, feliz em poder desencalhar aquela estranha peça que teimava em permanecer no mostruário. Dia ganho, pra ele!

QUE SAPATO!

Quarta-feira, Julho 06, 2005

ESTÓRIETAS UNIVERSITÁRIAS 1

PRÉDIO 6...OU SERIA 5?

Durante minha vida de Professor Universitário, coisa que fiz com muita paixão e, imodestamente que seja, com muita competência, muitas coisas interessantes aconteceram.
Algumas até importantes, outras sem significação maior, mas assunto para boas estórias, não faltou.
Hoje, então, vou falar de uma ocorrência sexo-estudantil, que prestigia a combalida categoria dos Arquitetos. Entre parênteses: todo mundo conhece aquela piadinha, certamente gerada pela cabeça de algum engenheiro enciumado, que diz que “o Arquiteto é aquele cara que não é macho suficiente para ser Engenheiro, e nem fresco o necessário para ser Decorador”.
Certamente a cabecinha de quem engendrou tal dito, deve ser de um enrustido qualquer que não teve a “hombridade” de assumir sua opção sexual!

PRÉDIO PRINCIPAL

“Nem sei bem em que ano, a Universidade Santa Úrsula, em sua fase de expansão, precisou construir mais um prédio, capaz de abrigar a solicitação, cada vez maior, de jovens que pretendiam estudar por lá.
Surgiu, então, o famoso Prédio 6 (ou seria 5?), construído mais lá para os fundos, um projeto de arquitetura (minúscula, mesmo, pois o prédio era um horror em matéria de Arquitetura). Nunca se soube ao certo quem perpetrou tal mediocridade arquitetônica, numa Universidade que tinha em seu bojo vários e bons Arquitetos. Mas, deixa isso pra lá. Passou!
Volto ao causo!
Durante a construção do elefante branco, acompanhávamos de longe sua execução, as vezes chegávamos mais perto, mas havia uma certa intolerância por eventuais visitas. Principalmente de alunos.
Mas, todo mundo sabe como são os jovens. Irrequietos, buliçosos, desrespeitadores, até mesmo. A curiosidade em saber o que acontecia lá no Prédio 6 (ou seria 5?) era grande. E as incursões proibidas aconteciam. Todos sabiam. Mas, elas aconteciam!
Até que um belo dia a notícia correu todos os corredores, salas de aula, cantos, praças, rampas, oscambáu, da USU:
Pegaram dois alunos trepando (fornicando, fazendo sexo, fazendo amor, fudendo, podem escolher), numa sala do Prédio 6 (ou seria 5?). No meio de materiais de construção, operários passando, sexo quase selvagem, sem medidas ou cuidados maiores. Aquele sexo transgressor, dos bons!
PRÉDIO 6

Procura daqui, pesquisa de lá, de onde são os alunos, que curso eles fazem, até que veio a descoberta, pelo anúncio feito pelo correio-corredores, pelo boca-a-boca dos alunos, pelo disse-me-disse dos funcionários e professores:
ERAM ALUNOS DA ARQUITETURA! (esclareça-se: um rapaz e uma moça, claro!)
Estava salva a honra macho-pra-valer, dos nossos alunos! Mais uma vez a Engenharia curvava-se ante a Arquitetura!
Durante muito tempo a brincadeira nossa, Professores do CAA (Centro de Arquitetura e Artes, esse o nome oficial da Faculdade de Arquitetura), quando encontrávamos nossos colegas Engenheiros era perguntar se eles ainda tinham dúvidas quanto à macheza arquitetônica!
O nome dos dois, nunca ninguém soube. Se aquilo deu em namoro, noivado, casamento, ajuntamento, até gravidez, passou ao largo. Mas que treparam, treparam”

ETA PREDINHO FEIO DA MOLÉSTIA!

Quinta-feira, Junho 30, 2005

TUDO NA TENENTE POSSOLO *

Nome da rua onde morei numa época muito marcante da minha vida.
Mais ou menos de 1942 e 1950, idade entre 8 a 15 anos.

Acompanhei, ouvi falar da 2ª Grande Guerra Mundial, escutei pelo radinho o desembarque aliado na Normandia. Vi estarrecido a população, no meio dela minha tia, invadir, depredar e ususupar, tudo que havia na Bremensis, firma alemã em frente ao prédio em que morávamos, quando o Brasil declarou guerra ao Eixo.( alemães, japoneses e seus aliados). Racionamento, coletas de valores para ajudar na campanha da guerra, tudo misturado na cabeça de um menino que tentava entender o que era aquilo, na verdade.
Tudo na Tenente Possolo!

Ruazinha pequena, a Tenente Possolo, era mais conhecida pela Sinagoga, a maior da época, onde rolavam, quase sempre, grandes festas da comunidade judia, casamentos em geral, fartamente “penetrados” pelo meu irmão, louro e de olhos azuis. Até hoje tenho em meus ouvidos a música mais tocada nas festividades, alegre e barulhenta. Meu prédio, o Edifício Graças a Deus (sério, o nome era esse mesmo!) era vizinho da Sinagoga.
Tudo na Tenente Possolo!

Grandes “batalhas” campais, entre as turmas da Riachuelo e da Mém de Sá, ou General Caldwell, ruas grandes e de turmas briguentas, que faziam da nossa ruelita uma espécie de território neutro para suas desavenças. E tome pedra voando.
Tudo na Tenente Possolo!

E os campeonatos de botão?! Meu time era o América, o Tico-Tico no Fubá, como era apelidado. Vicente, Osni e Grita. Ely, Danilo e Amaro. China, Maneco, César, Lima e Esquerdinha. Até hoje me lembro do meu time. Um dos melhores “campos” dos nossos campeonatos era o chão do meu quarto. Nunca fui campeão. Meu irmão, Marco Antonio, o menor de todos os participantes, era o Bonsucesso.
Tudo na Tenente Possolo!

E a Ula! Ursula Levandowiski. Polonesa, chegara a nossa rua fugindo da fúria nazista. Virou amiga nossa, ela e seus pais. Amicíssima da minha irmã, Elsa Maria, confidentes e companheiras. Anos mais tarde foi para os Estados Unidos, durante algum tempo mandou notícias, depois casou, teve filhos...nunca mais soubemos dela.
Tudo na Tenente Possolo!

E os balões, dessa época de São João! Eu fazia balões, caseiros, claro. Mas de todos os modelos. Charuto, Quadrado, Pião, Estrela...Pequenos, mas competentes. Geralmente, subiam legal. Nada tão perigoso. Diferentemente de hoje, nessa época, São João, São Pedro, a noite o céu ficava coalhado de balões. Tascar balões, brigas por causa deles, corre-corre..
Tudo na Tenente Possolo!

Partido Comunista na Ilegalidade! Lembro-me bem, minha mãe, comunista de carteirinha, partido de novo perseguido, a gente escondendo os jornais (Tribuna Operária, seria?), minha mãe guardando em local seguro até os livros do Jorge Amado. Carteirinha? Rasgada e incinerada. Minha mãe era do tipo comunista teórica idealista, sabia tudo de Marx, adorava o Cavaleiro da Esperança, Luiz Carlos Prestes, mas era medrosa, também. Ainda bem! Reunião noturna, quase nem soube, foi lá em casa, escondidissimo, o Agildo Barata.
Tudo na Tenente Possolo!

Nossa turma da rua, os irmãos Arlindo e Dino, Carlinhos, Wilmar e Edmar, outros dois irmãos, literalmente filhos da puta ( a mãe era do ramo), Joubert, também filho de puta, Zé meu amigo (assim mesmo, nome e sobrenome, meu maior amigo da época) , soube depois bandido e presidiário, suas irmãs, também dedicadas à mais antiga das profissões, Danton, o Fluminense do botão, sempre arrumado, também soube mais tarde, aviadou. E o Leão, anos e anos mais tarde soube, irmão do Silvio Santos, o Léo Santos, acho que já morreu .
E o próprio, o Senor Abravanel ( atualmente, também conhecido como Silvio Santos), mais velho que a gente, nosso ídolo distante, maior camelô do Rio de Janeiro. Que turma!
Tudo na Tenente Possolo!

Nossos times de futebol, peladas de bola de meia na rua, meio a passantes e automóveis. A DGI (sigla do Departamento Geral de Investigações), assim pintado nas camionetes da polícia e que, quando apareciam, nos faziam correr pra casa. Naquele tempo a gente respeitava a polícia.
Tudo na Tenente Possolo!

O atropelamento de um amigo da turma, nem me lembro do nome, por um caminhão. Passamos alguns dias sem sair de casa. O cara morrera, pensávamos. Meu primeiro contato com a morte! Engano, pois alguns dias depois, o cara voltou, são e salvo, ainda contando vantagens e peripécias da ocorrência. Virou ídolo!
Tudo na Tenente Possolo!

E as primeiras “informações” (deformações?) das coisas do sexo? A surpresa, quase indignação, quando fui “cientificado”, pelos mais velhos, de que meu pai fazia sexo com minha mãe? Custei a acreditar!
Galinha ao molho pardo, com a galinha sendo “sacrificada” em casa mesmo, pela cozinheira, depelada em água fervente, sangue colhido para o delicioso molho! Assiti várias vezes, meio querendo, meio não querendo, ver aquele ritual.
Tudo na Tenente Possolo!

Tempo passou, fui crescendo, nos anos 50 começamos nossa “viagem” em direção à Zona Sul, indo morar em Botafogo, numa enorme casa, então do Governador de Pernambuco, Barbosa Lima Sobrinho. Evolução, Progresso.

Mas, da Tenente Possolo, eu nunca esqueci!

TUDO NA TENENTE POSSOLO!!!

* Primeiro Tenente Eugenio da Silva Possolo - Da Aviação Naval, na Escola de Aviação de Easthon, na Inglaterra, em 5 de Setembro, num avião Sopreith Acaeb, monoplast, realizando um vôo de grupo em volta do mundo e que naquele dia chegaram ao Rio de Janeiro.

Sábado, Junho 25, 2005

VERINHA, 6 DÉCADAS

Verinha, Vera Lucia Évora Cals, nascida Vera Lúcia Évora de Oliveira.
Conheço essa mulher, bem antes dela ser uma mulher.
Ano de 1956, primeiro ano da Faculdade Nacional de Arquitetura, éramos colegas de turma, eu e um primo dela, Paulo Évora, o Paulinho. Aliás, eu e o Paulo fomos colegas de Anglo Americano desde o segundo ano primário.
A família do Paulo tinha um sitio maravilhoso na Posse, distrito de Petrópolis, onde íamos curtir belos finais de semana e férias. Ela, a Verinha, então com 11 aninhos, era uma das primas do Paulo que iam sempre lá, passavam férias, etc.
Calma!!! Aos onze anos da Verinha, eu, nessa altura com 22 anos, nem olhava pra´quela garotinha magricela, prima do Paulinho. Ai, a conheci, sem saber, nem dar atenção, àquela que seria a mulher da minha vida.

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Verinha, aqui já quando namorávamos

Tempo que passa, formo-me, Verinha cresceu, ficou (ainda é) bonita, olhares voltados pra ela, o meu inclusive. Tento namora-la, ela não queria. Muito velho, argumentava ela. Mas, tanto insisti que ela acabou aceitando.

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Verinha e Eu. Namorados

Namoramos, casamos, cedo ela teve nossos dois filhos, Andréa e Bruno, casados ficamos por dezenove anos, quando nos separamos. Passamos uns dez anos separados.
Casei de novo e tive mais duas filhas, Maria Fernanda e Marcella. Verinha, também teve suas uniões, filhos não.

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Verinha, dias atuais

Tempo passou (como o tempo passa!!!), separamo-nos das novas ligações, ficamos livres e voltamos a nos casar. Até hoje não temos certeza se agimos certo. Rsrsrsrsrs.
Já são mais de dez anos nesse segundo casamento, que, espero eu e torço que ela pense assim também, seja eterno. Pelo menos, fala poetinha, enquanto dure!

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Verinha e Eu. Dias de hoje.

Hoje, 20 de junho, Verinha completa 60 anos. Maravilhosa, cheia de saúde e energia, e, felizmente, ao meu lado.
Parabéns a essa (minha) mulher que faz da integridade e da honestidade de princípios, além de outros inúmeros atributos que não ouso enumerar, a razão de sua vida. E muito obrigado por continuar a me “suportar” como seu companheiro!

PARABÉNS, VERINHA!!!

Sexta-feira, Abril 08, 2005

BOI TIRADA

Estudei em um colégio maravilhoso. Colégio Anglo Americano, no Rio de Janeiro.
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"Nós alunos do Anglo Americano
Com orgulho podemos proclamar
É sorrindo, é cantando,
que vivemos aqui a estudar"

E por aí seguia...

Lá em casa funcionava assim: meu pai entrava com a grana pras coisas fundamentais, casa, comida, etc e a minha mãe, que trabalhava na Helene Rubinstein, encarregava-se do pagamento dos colégios da gente. Eu , minha irmã Elsa Maria e o irmão caçula Marco Antonio. Sempre estudamos em ótimos colégios, graças aos esforços da nossa mãe que disso fazia questão.

Quando entramos pro Anglo Americano, ainda bem crianças, ele se chamava British American School, horário tipo americano (entravamos as nove da manhã e saiamos as cinco da tarde). Íamos e voltavam no ônibus do colégio. Seu Manuel, o motorista. O colégio, essa seção, meio primeiras letras, ficava em Copacabana, avenida Atlântica. Dos velhos tempos, claro. Nosso recreio era na areia da praia. Limpa e branca, como há muito não é mais!

Um ano depois essa seção do colégio foi desativada e fomos para a Praia de Botafogo. 1942.
O colégio passava por uma “nacionalização” e mudava o nome para Colégio Anglo Americano, nome que ostenta até hoje. 2º ano primário, então. Ali cursei toda a minha vida escolar, de 1942 até 1954! Muita gostosa saudade.
Cinema, ginásio coberto, piscina semi-olimpica (25 metros), amplo recreio, ali cresci e estudei, amando aquele colégio.

No meio desse imenso recreio, havia uma caixa de areia, dessas que eram usadas para salto em distância e altura e que nós, nessa altura dos anos, lá para o início dos anos 50, havíamos transformado em um dos nossos patrimônios, verdadeiro latifúndio, para o Boi Tirada. Nossa preferida brincadeira, estúpida e enlouquecida brincadeira, dos recreios juvenis. Claro, ai só participavam os maiores, os caras que já estavam no científico, com mais de 15/16 anos. E a porrada comia! Solta e sadia, mas comia!

angloamericano-2.jpg
Uma caixa de areia era mais ou menos assim.

Então, era assim o jogo: dois grupos, na verdade dois bandos. Tipo polícia e ladrão, um grupo tentava prender o outro. Sorteados os grupos, quem iria prender saia a cata dos adversários, nessa altura dos acontecimentos escondidos pelos cantos e recantos do recreio. Presos, éramos colocados na tal caixa de areia. Os que ainda estavam soltos, então, deveriam tentar soltar os prisioneiros, invadindo a caixa de areia, a “prisão”, entrando nela, sempre correndo e se atirando lá dentro, contra a barreira dos defensores, gritando ao cair na areia em saltos alucinados, as palavras salvadoras, “BOI TIRADA”.
Consumada essa tentativa, fugiam os que estavam presos e tornavam a tentar prender os que escapavam, os carcereiros. E tudo recomeçava, até o término do recreio.

Escusado dizer que quase sempre aconteciam acidentes, arranhões, torções de tornozelos e/ou alguns narizes quebrados ou a sangrar. Porrada para conseguir o intento, nunca faltou. Essas, as necessárias porradas , no entanto, nunca nos levaram às vias de fato.

Boi Tirada? Nunca soube o porque desse nome!!!

MUITA SAUDADE DO BOI TIRADA!!!